Sem saideira
O tempo se esvai em mim e
Rápido escorre sem memória.
Alucino neste lapso repentino
Em que imagino teu abraço
E sonho, relapso, que sinto
O sopro morno de frases soltas
Que me recitas ao ouvido
Mas, entrecortado, o fôlego curto
É um adeus terno e afiado que
Me larga ao vento, abandonado.
Perco-te no abraço largo
Que não demos, e o compasso
Que perdemos evidencia a
Distância que nos afasta o tempo
Em outra vida, dizes, quem sabe…
E no zás de um instante
Piso novamente em chão firme.
Caio do céu de nosso enlaço
E aos poucos apago a memória.
O tempo que me resta é este
Sem volta, solitário, sem vez.
Não adio mais nada para o além
Não quero karma no depois
Fecho a conta, sem saideira.
Levo comigo apenas o fio
Dos amores que vivi intensamente
Das perdas e daquilo que não tive
Mas que, vazio, se fez presente.